Polêmico. Sarcástico. Autêntico. Colunista da revista Veja, Diogo Mainardi chama a atenção
pelas opiniões excêntricas e estilo cáustico com que escreve. Controverso, instiga as mais
variadas posições a seu respeito. Árdua tarefa é defini-lo, mais simples dizer o que
definitivamente não é: objeto de indiferença. Amado por alguns e odiado por muitos,
ele nos força a refletir sobre velhos - e muitas vezes caquéticos - conceitos,
ao apresentar pontos de vista originais onde predomina o senso comum.
Este blog busca reunir - na medida do possível - informações e novidades
sobre seu trabalho, assim como links (abaixo) para matérias e entrevistas.
Criação:
Hipácia Escher 24 anos, paulista, estudante
- Documentário "Conexão Manhattan: os bastidores do Manhattan Connection"
Direção: Luiz Fernando Carvalho
Edição: Luiz Fernando Carvalho, Mariana Penedo, Manoela Campos
Duração: 38 minutos
Ano: 2007 Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4
- Participação no programa "Sem Controle" do GNT, em 09/11/2006.
Parte 1 Parte 3
Hoje, às 17h, no Set Universitário da Faculdade de Comunicação da PUCRS, Diogo Mainardi falará sobre 'relações incestuosas entre mídia e poder'. Diogo é o melhor colunista brasileiro da atualidade. Coloca todos os demais facilmente no bolso. Tem o talento e a acidez sem pompa que Arnaldo Jabor adoraria possuir. Tem a virulência certeira que Luis Fernando Verissimo jamais se atreveu a praticar. O seu estilo é uma mescla de informação, ironia e coerência na visão de mundo. Bem examinado, ele é um humorista. Os seus textos fazem rir. Um riso amargo. Esse humor extremo e original provoca reações contraditórias. Os petistas o abominam por ideologia e ressentimento. Os liberais o adoram sem o compreender realmente. As mulheres o acham o maior gato. Os marmanjos o invejam ou fingem ignorá-lo. Paulista, Diogo vive no Rio de Janeiro. Bom de literatura, optou pelo jornalismo de opinião na revista Veja. Crítico implacável da caipirice brasileira, deixou a Itália e voltou para casa sem nostalgia nem condescendência. Os paradoxos o acompanham e fazem dele um sucesso de mídia. Diogo Mainardi parece divertir-se.
Poucos no Brasil têm a sua capacidade de farejar a polêmica e de exercitar a provocação. Os críticos mais desesperados de Diogo Mainardi adoram afirmar que ele imita Paulo Francis. Os seus admiradores mais fervorosos adoram afirmar que ele é o novo Paulo Francis. Os leitores costumam ter esse tipo de reflexo simplificador. Os meus inimigos adoram afirmar que eu imito Diogo Mainardi. Os meus admiradores mais fervorosos adoram afirmar que eu sou o Diogo Mainardi dos pampas. Cada um tem direito à sua dose cotidiana de bobagem. Eu não me importaria de imitar Diogo. Mas prefiro simplesmente admirá-lo sem outra pretensão. Temos diferenças de pontos de vista. Diogo é mais coerente e sistemático. Tem posições firmes e claras. Não se deixa impressionar por nenhum tipo de sentimentalismo de classe.
Lulla vai odiá-lo para sempre. Pode fingir que não dá bola, fazer de conta que não o lê, pode bancar o forte e o indiferente, mas a marca do polemista está presente no seu dia-a-dia, a mordida é semanal, não há antídoto que o proteja. A editora Record publicará em outubro a nova coletânea de crônicas de Diogo Mainardi. São as crônicas do mensalão. O homem vai cutucar novamente a anta com a vara curta. Até agora, Diogo não se enganou em nada quanto aos escândalos da república do boi de piranha. Por causa disso e de outras façanhas, tornou-se recordista em processos. Todo mundo recorre à Justiça para tentar se vingar do seu veneno. O gaúcho Jorge Furtado, especialista em fazer filmes cada vez piores, mas sempre patrocinados, conseguiu arrancar uma grana da Veja como compensação por ter sido atingido por golpe de lucidez irônica e impiedosa.
Diogo Mainardi já ousou atacar muitos dos mais intocáveis mitos brasileiros. Debochou dos cariocas que aplaudem o pôr-do-sol. Mostrou o lado brega de Carlos Drummond de Andrade. Se fizesse um estágio por aqui, certamente não perdoaria a jequice porto-alegrense que trata o nosso pôr-do-sol como o mais lindo do mundo. Eu adoraria ler uma crônica sua sobre o pior de Mario Quintana. E outra sobre a Revolução Farroupilha, essa guerra civil que perdemos, assinamos um acordo de empate e comemoramos como se tivéssemos vencido. Viva o plágio!
(Juremir Machado da Silva - Correio do Povo - 17/09/2007)
8:33 AM
Quarta-feira, Agosto 29, 2007
Entrevista de Diogo Mainardi para o Instituto Millenium
PF abre inquérito para apurar negócio entre Gamecorp e Telemar
Procurador pede investigação para identificar se aporte de R$ 5 mi foi motivado pela presença de Lulinha na empresa
Apuração no Rio ainda está em estágio preliminar e se baseia apenas em notícias da imprensa; investigação pode ser transferida para SP
RAPHAEL GOMIDE
DA SUCURSAL DO RIO
A Superintendência da Polícia Federal no Rio abriu inquérito para investigar suspeita de tráfico de influência na compra da Gamecorp pela Telemar por R$ 5 milhões. Um dos sócios da Gamecorp é Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A Delefaz (Delegacia Fazendária) da Superintendência do Rio recebeu em outubro do ano passado uma requisição do procurador da República no Rio Rodrigo Ramos Poerson determinando a instauração de um inquérito sobre o caso.
No documento, Poerson pede a investigação para identificar se o "desproporcional aporte de recursos financeiros estaria sendo direcionado à empresa Gamecorp única e exclusivamente em razão de contar com a participação acionária do filho do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva".
A Procuradoria aponta a suspeita de "tráfico de influência" e cita o correspondente artigo 332 do Código Penal no ofício 246/2006, enviado em outubro de 2006. O procurador e o Ministério Público não quiseram comentar o caso. A PF iniciou a investigação 1267/2007 em 29 de junho deste ano, oito meses depois do ofício.
O documento enviado pela Procuradoria baseava-se em representação da presidência da Câmara Municipal de Belém (PA), por iniciativa do vereador Iran Morais (PMDB), relatando notícias da imprensa sobre o caso. A Folha não conseguiu contato com o vereador nem com a Câmara Municipal de Belém. A informação sobre a investigação foi publicada pelo colunista da revista "Veja" Diogo Mainardi, no site da revista. A equipe da delegacia federal do Rio ainda está na fase inicial de verificações, com pedidos de informação das empresas à Junta Comercial do Rio de Janeiro. Tudo está sendo feito de maneira bastante cautelosa, tendo em vista o nome de um dos possíveis investigados.
Segundo a Folha apurou na PF, ainda não há apuração específica sobre a eventual responsabilidade do filho do presidente Lula, mas sim investigação sobre os dados das empresas Telemar e Gamecorp, que podem levar à investigação de pessoas, entre elas Lulinha.
O inquérito foi aberto no Rio, onde fica a sede da Telemar, que disse que não comentaria a investigação. Os policiais aventam a possibilidade de transferir a investigação para São Paulo, sede da Gamecorp.
A Folha apurou que os principais responsáveis pela investigação consideram que o material gerador da abertura do inquérito não tem informações relevantes ou substanciais: a representação se resume a notícias publicadas na imprensa.
No fim de 2004, a Telemar, maior operadora de telefonia fixa do país, investiu R$ 5 milhões para virar sócia minoritária da Gamecorp -empresa de Lulinha. O montante correspondia a 96% do capital social da empresa (R$ 5,2 milhões).
Oficializado em 2005, o negócio foi intermediado pela DBO Trevisan, de Antoninho Marmo Trevisan, amigo do presidente, que nega ter qualquer relação com a operação.
A Telemar é uma concessionária de serviço público que tem entre seus sócios uma estatal federal, o BNDES, dona de 25% da operadora. Além do aporte de R$ 5 milhões, a Telemar gasta anualmente outros R$ 5 milhões com patrocínio e produção de programas de TV da empresa -seis horas diárias da Play TV (antiga Rede 21, do grupo Bandeirantes). Inaugurada em 2006, baseia sua programação em música e jogos.
Diogo Mainardi: colunista de sucesso encobre escritor notável
Por BRUNO GARSCHAGEN
Esqueça, enquanto durar este texto, o Diogo Mainardi colunista da revista Veja. Esta resenha vai tratar somente do escritor, que submergiu ante as vigas pesadas do celebrado e vilipendiado jornalista. Se o trabalho como colunista foi ótimo para Mainardi, soterrou seu trabalho como escritor.
Não foi à toa seu anúncio público de que não mais escreveria ficção. É lamentável que seja assim, pois seus quatro livros, agora reeditados pela editora Record (pertenciam à Cia. das Letras), mostram um escritor não só brilhante, como um dos raros único no Brasil a conjugar de forma notável o melhor do romance satírico inglês, francês, italiano e espanhol. Perdemos o desenvolvimento do ficcionista, ficamos com as obras já escritas. Não é pouco, mas podia ser mais.
Na novela “Malthus” e nos romances “Arquipélago”, “Polígono das secas” e “Contra o Brasil”, Mainardi trabalhou suas referências brasileiras (Machado de Assis, Lima Barreto, Ivan Lessa) com suas dedicadas leituras dos ingleses (Jonathan Swift, Laurence Sterne, John Milton, Evelyn Waugh), dos franceses (François Rabelais, Denis Diderot, Voltaire, Louis-Ferdinand Céline), de espanhóis (Miguel de Cervantes) e italianos (Ítalo Calvino). E alguns de seus personagens trazem uma afetação deliciosa cujo eco pode estar nos personagens vitorianos de P.G. Wodehouse.
O espirituoso e ácido humor inglês, o realismo crítico francês, a metanarração italiana, elementos do picaresco espanhol, eis os elementos de sua prosa. E aqui falo do romance picaresco do século XVII, quando a astúcia substituiu a ingenuidade, as peripécias ganharam mais imaginação e o grotesco passou a dominar o realismo das caricaturas.
São obras exemplares desse período “Gil Blas” (1715-1735), do francês Alain René Lesage, “Unfortunate Traveller” (1594), do inglês Thomas Nashe, “Moll Flanders” (1722), do compatriota Daniel Defoe; “Tom Jones” (1749), do também inglês Henry Fielding, além de “Novelas exemplares” e “Dom Quixote”, ambas do espanhol Cervantes.
Os quatro livros de Mainardi formam uma espécie de epopéia heróico-cômica minimalista, na qual os personagens atuam por meio da palavra, e não da ação, como bem notou o jornalista Mario Sabino na orelha de “Malthus”. Não há sobras no texto, como em Machado de Assis. Tudo está onde deve estar. Se o estilo é o homem, como queria Buffon, Mainardi é o homem, com estilo.
Para a coluna de Veja, o escritor e jornalista levou a brutalidade substantiva de sua ficção. O ridículo, a pobreza intelectual do senso comum, o grotesco e as contradições do ser humano, homem médio ou intelectual de grife, os vários níveis de precariedade do país, tudo é esmiuçado com delicadeza tiranossáurica. É sempre a mesma absurda posição diante dos acontecimentos: fala-se algo, faz-se o oposto. O que faz Mainardi? Uma elegante e sempre aprumada tijolada.
O deboche, a sátira e a violência literária carregam a maravilhosa influência de um dos mais burlescos, ciclotímicos e bem-humorados escritores brasileiros, Ivan Lessa que, para nosso azar, pouco publica em livro. O que existe pode ser garimpado em edições do Pasquim e da revista Status, além, claro, da pequena seleção feita por Mainardi em “Garotos da fuzarca”. As seleções “Ivan vê o mundo” e “O luar e a rainha” são de textos para a BBC, o que não invalida, mas nada tem a ver com a contundência explosiva e literária dos textos reunidos no primeiro livro.
Na novela “Malthus”, a escrita ligeira e atordoante, com seus personagens vertiginosos, traz a marca de Ivan Lessa. Nos romances, Mainardi diluiu suas influências, se assim posso chamar, para forjar um texto irascível, cômico e empolgante, que faz do ridículo humano uma razão para o deboche.
Há um trecho sintomático da crueldade cômica de sua prosa num trecho de “Polígono das secas”, quando ao se ver sozinho e preso numa caverna com o filho morto o pai passa a fazer da boca do cadáver uma cesta para acertar as pedrinhas que encontra no chão. Simples passatempo que dialoga com as brutalidades reais do cotidiano sertanejo e urbano.
Numa das cenas de “Arquipélago”, os náufragos à deriva, um deles perde o braço com a queda do mastro da embarcação improvisada. Sem rumo nem prumo, tudo vale como bússola. Então, eis que o braço esticado e amputado, apontando para o nada, serve de guia. Como diria meu xará, Giordano Bruno, se non è vero è ben trovato!
Em “Contra o Brasil”, há uma cena antológica: o protagonista Pimenta Bueno, aleijado pelo ataque dos mendigos instalados no prédio do antigo cinema que lhe cabe no espólio paterno e carregado nos ombros pelo fiel escudeiro Azor, como no dorso de um jegue, limita-se a professar: “Pocotó, pocotó, pocotó”. A onomatopéia, por vezes, vale por mil palavras.
O humor de Mainardi oscila entre o comedido e galhofeiro, e provoca frêmitos e inevitáveis gargalhadas. Descrições, digressões. Eu até deveria fazer os resumos dos livros citados, mas deixarei em você, leitor, o despertar da curiosidade pelas quatro obras.
Mainardi é acusado freqüentemente como intelectual de ser antibrasileiro. É um equívoco, fruto de má leitura: qualquer sujeito minimamente alfabetizado vai perceber que seus textos são tão antibrasileiros quanto anti-italianos, anti-franceses, antiamericanos. O sumo de suas críticas é o ser humano, que se repete em suas idiossincrasias, tolices e estupidez em qualquer parte do sistema solar. É lapidar a observação de Otto Lara Resende, que, ao voltar de Bruxelas, cunhou essa pérola: “a Europa é uma burrice aparelhada de museus”.
Sei que pelo menos metade dos leitores que chegou até aqui neste texto odeia e a outra metade adora Diogo Mainardi. É do jogo. Numa entrevista em 1998, para o então colunista da Folha Marcelo Rubens Paiva, o escritor disse que o que mais o incomodava era a imagem de polemista. “O fato de minha figura provocar polêmica só me atrapalha. Eu sou irrelevante ao lado de minha obra. Vejo a sátira como uma disciplina que não poupa nada, ninguém. Fico sem aliados”.
Com ou sem aliados, Mainardi segue. É preciso torcer e pressioná-lo de forma grave para que ele mude de idéia e volte a escrever ficção. Na há dúvidas de que é um dos mais inventivos e talentosos romancistas vivos. Prescindir dele é prova de burrice monumental. Rabelais já vaticinou: “A ignorância é a mãe de todos os males”.
PS: Esta resenha foi escrita e publicada no caderno Idéias, do ex-JB, em julho do ano passado, quando os livros foram relançados. O título não é o que pus aqui, pois não lembro o que pus lá.
Ele já se definiu como Bouvard et Pécuchet, personagens de Flaubert. Sua literatura conjuga o melhor da prosa satírica, burlesca e picaresca forjada na Inglaterra, França, Itália e Espanha. Daqui, sorveu, especialmente, Lima Barreto e Machado de Assis. D elá, Rabelais, Diderot, Voltaire, Swift, Milton, Cervantes, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Evelyn Waugh, P.G Wodehouse. Tem mais? Tem. Mas tudo o que é demais excede, já dizia minha bisavó.
Sua prosa futuca as chagas e os ridículos do homem médio, do homem baixo, do homem ocidental, das três mulheres altas, do homem imperfeito que se pretende perfeito pelas boas ações, que nunca são. São trágicas. São cômicas. São Paulo. Onde nasceu. Não gosta de lá. Critica. Com violência. Com graça. Nem todos vêem a graça. Muitos vêem o Espírito Santo. A equação não fecha. Aqui o candomblé festeja os orixás dentro da Igreja Católica. Vai entender…
Diogo Mainardi: Uma novela (Malthus), três romances (Arquipélago , Polígono das Secas e Contra o Brasil), uma coletânea de artigos (A tapas e pontapés). Embora seus quatro livros mostrem um escritor notável e único no Brasil, não foi o romancista a ganhar fama. Foi o jornalista − primeiro, violento e azedo; depois, conjugando humor e virulência − a se tornar nacionalmente conhecido.
Você, leitor amigo, sabe, há alguns anos Diogo é o colunista mais comentado do país, para o bem e para o mal. Escreve para a revista de maior prestígio e maior circulação nacional, a Veja. No início, sobre temas culturais. A eleição de Lula converteu-o em colunista político. Foi um dos primeiros a destapar o derrière do governo petista. Pediu, por várias vezes, pela revista, o impeachment de Lula. Continua desnudando o mito Lula, avançou a trincheira na direção dos demais homens do presidente, mas admite o enfado do samba de uma nota só.
Suas colunas reverberam, retumbam. Numa lista das dez com maior repercussão de leitores da história da Veja, sete são dele. Andando com Diogo pelas ruas de Ipanema, ou conversando dentro de um café no mesmo bairro aqui do Rio, as pessoas se aproximam, cumprimentam, elogiam. Quem não gosta e reconhece finge indiferença.
Com a matéria docorrespondente do New York Times, Larry Rohter, feita em 2004, em que dizia haver preocupação nacional com o, digamos, hábito de beber do presidente Lula, Diogo ganhou tribuna mundial. Foi citado pela coluna na qual pedia ao presidente que parasse de beber em público.
Diogo, também comentarista do programa Manhattan Conection, do GNT, gosta do Rio. Mora aqui desde 2003, de onde escrevo, racho os calcanhares e o fígado. Cuida dos dois filhos, vive a esposa. Volta e meia dá um pau no Rio. Errado? Não. O Rio está falido. Sujo. Uma grande latrina de fezes e urina canina. Sobrevive pela paisagem e pela Globo. Ai de ti, Copacabana, já lamentara nosso cronista maior Rubem Braga. Ai de ti, Rio de Janeiro, resmungo eu.
Nos anos de 1980, se mandou para Londres. Estudos na London School of Economics. Procurou o escritor e jornalista brasileiro Ivan Lessa, radicado no país do doutor Samuel Johnson desde a década de 1970. Os estudos formais foram para o brejo. Ivan, que escreve para o site da BBC, concedeu-lhe a formação intelectual e humanista. No papo, na conversa. Livros por semana. Entregas na seguinte. E assim foi.
Diogo é sempre tachado como cópia mal feita de Paulo Francis. Mas ele, no tom e no texto, é da linha de Ivan Lessa. Corre e vai ver lá. Voltou? Prossigamos.
Cheguei a Diogo por sua obra literária. Só depois, às colunas. Fiz o caminho inverso do que o normalmente acontece. Brasileiro, às vezes, lê jornal e revista. Livro, nem pensar. Esta entrevista foi feita em dezembro do ano passado para a revista portuguesa Atlântico. A maior parte do que publico aqui no blog, incluindo esta introdução, não seguiu para Portugal, ficou aqui, guardado, e agora divido com vocês. Algumas perguntas, você vai notar, foi feita na ressaca da eleição do Nine Fingers, o terrível vilão que ganhou o segundo mandato nesta Terras de Vera Cruz. Mantive aqui porque as respostas são boas e não perderam validade. Mantive ainda as questões sobre Portugal. Você vai gostar.
A concessão da entrevista, foi por amizade, em forma de esmola. Senti-me Oliver Twist em Ipanema, calçao puído, nariz sujo. É assim aqui. Sem barquinho e violão, nada de chorar na varanda. É preciso garantir o uísque das crianças, alguém já disse isso, o autor, não lembro.
Era uma tarde de céu nublado. Rumo à Estação Ipanema. Apartamento dele em frente ao mar. A praia, dia cinza, parecia um instantâneo de Cartier-Bresson. Lá fui, cheguei, vi e ouvi. A conversa é essa. É boa. Você, leitor amigo, não pode não gostar.
BRASIL
Você foi um dos três jornalistas brasileiros, além de Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, que desde a eleição de 2002 fez oposição aos modus operandi do PT e do presidente Lula. É destino, sina ou maldição? Eu nunca fiz uma crítica ideológica ao governo. O governo não é ideológico; o Lula, sobretudo, não é ideológico. Eu sempre o tratei como o laranja de uma gangue, como o testa-de-ferro de uma bandalha. A única novidade desse governo é que ele criou um escudo muito forte para acobertar a roubalheira, que é a imagem do próprio Lula. Ergueu-se uma cortina atrás da qual o roubo corre solto. Eu sempre pensei em abrir essa cortina, em minar o testa-de-ferro, em revelar o esquema laranja escondido atrás do Lula. O meu trabalho, desde o começo, foi desmontar o mito Lula. Eu só via nele uma fachada para encobrir interesses muito menores.
Se o Lula é o testa de ferro, quem é que manda no governo? Lula se insere na velha tradição do caudilhismo. Um grupo de pessoas que veio da camada mais baixa da sociedade toma o poder e só pensa em se dar bem. É um grupo bastante grande e que está disposto a tudo. Aconteceu no Brasil e na América Latina muitas outras vezes no passado, e está acontecendo de novo agora. Com o discurso de combater a oligarquia, se forma uma cleptocracia.
Esse grupo que está por trás do Lula é ideológico? Eles usam a ideologia quando lhes convêm; quando serve para arrebanhar inocentes úteis; quando serve para criar uma cortina de fumaça que os proteja ou quando a ideologia ensina um método de ocupação do poder. Mas o fim é apenas mercantil. Eles estão interessados em dinheiro, em poder, em se perpetuar no poder.
Alkmin não ganhou porque era uma péssima alternativa ou errou na campanha? Alckmin era um péssimo candidato, o PSDB é um péssimo partido, e a gente não tem uma oposição de verdade no Brasil. A oposição fez um papelão durante um ano e meio nas investigações da roubalheira petista. Como a gente sempre conviveu com roubalheira, eu tentei lembrar que a roubalheira petista era pior do que as outras porque tinha um intuito golpista, como no caso do mensalão pago a parlamentares para apoiar o governo. Isso pode ter ocorrido no passado para comprar um ou dois projectos de lei, mas não para uma legislatura inteira. Uma compra desse nível nunca houve na história brasileira. O dossiê é outro caso de subversão da alternância, da democracia, financiada com dinheiro sujo. Toda a roubalheira petista tem um fundamento antidemocrático. Isso foi o que sempre me preocupou.
Como você imagina o Brasil com mais quatro anos de governo Lula? Há um abatimento muito grande. A economia vai continuar em marcha lenta. Na parte dos direitos democráticos, vejo uma ameaça permanente, inclusive contra a liberdade de imprensa. Mas Lula só vai se “chavizar”, só vai transformar o governo em algo mais bolivariano, se a economia despencar ou se a imagem pessoal dele for para o brejo. Sempre achei que o maior perigo do Lula era que ele estaria disposto a fazer qualquer coisa para não perder as benesses do poder. Ele seria capaz até de fechar o Parlamento ou de confiscar a propriedade dos meios de comunicação. Se ele não tiver que fazer nada disso, vai continuar o governante paternalista, assistencialista, que a gente viu até hoje. Mas se a situação económica internacional piorar, temo que ele possa cometer mais algum despropósito antidemocrático.
AMÉRICA DO SUL
Quais são os pontos de identificação que você enxerga entre Lula, Chávez e Morales? Eles são parte de uma mesma coisa, fruto do mesmo germe. A definição de caudilhismo se aplica a todos eles. Eles são uma expressão do passado e imaginam um tipo de sociedade atrasada. A afirmação desse tipo de liderança vai levar a mais subdesenvolvimento. No passado, os caudilhos foram sucedidos por ditaduras militares. A gente espera que isso não aconteça mais uma vez.
Também não há componente ideológico em Chávez e Morales? Também não. Chávez tentou dar um golpe, fracassou, foi eleito, deu um golpe branco depois de ser eleito, tomou conta dos meios de comunicação. Eles todos são apenas uns oportunistas que se aproveitam desse discurso de combater as oligarquias.
Você acha que essa malta tem peso para ditar os rumos políticos da América Latina? Claro que sim. Ditar o rumo da tragédia é fácil. Você não precisa ser um grande estadista para levar um país à ruína. Eles estão sendo acompanhados rapidamente por um monte de gente na Nicarágua, no Equador. O México se livrou por pouquíssimo. Não são mais fenômenos isolados. Eles são a maioria na região.
PORTUGAL
Governante português, sempre que vem ao Brasil, leva consigo uma grande embaixada, mas a idéia que os portugueses têm é que os brasileiros não dão a mesma atenção às relações com Portugal. Qual sua opinião sobre a relação do Brasil com Portugal? Aqui, o cargo diplomático é um favor político, uma concessão política, e Portugal é o destino dos piores políticos, dos mais ignorantes - os monoglotas. Eles são mandados para Portugal porque é o único país onde se fazem compreender. É assim que funciona: o presidente pega um idiota malandro ligado ao governo e manda para Portugal como prêmio.
Isso significa que o governo não dá a menor pelota para país de Eça? Não dá a menor pelota para lugar nenhum. A carreira diplomática no Brasil é politizada. O Brasil está cheio de bons diplomatas, mas que não fazem carreira. Quem é mandado para as principais embaixadas, como Portugal, em geral, é político de terceira categoria.
Ainda persiste entre os brasileiros o estereótipo de Portugal como o lugar com mulher com bigode? Brasileiro não tem o menor interesse pelo que acontece fora do Brasil. Na verdade, não se interessa nem pelo que acontece nos Estados Unidos. Portugal não é notícia no Brasil porque é um país que se acertou. Bem ou mal, Portugal se transformou num país, algo que a gente nunca conseguiu fazer.
No caso dos Estados Unidos, compreende-se que o americano médio não dê a menor importância para o resto do mundo por viverem numa potência mundial. No caso do Brasil, como se explica esse alheamento? O mundo é complexo, precisa lembrar o nome de muita gente, o nome da capital, da moeda… Quando o assunto começa a ficar muito complicado, a gente perde o interesse, olha para o lado, assovia. Brasileiro não é capaz de tanta concentração.
O que acha da frase de Eça de Queiroz de que o brasileiro era o português dilatado pelo calor -livre de preconceitos, aberto e livre? Eça tinha opiniões muito pertinentes sobre o Brasil. Ele entendeu muito bem o país. Tudo o que ele dizia de mal a nosso respeito é verdadeiro. O Eça é um grande exemplo de intelectual antinacionalista. Ele falava mal não só do Brasil, mas também de Portugal, de maneira muito ácida, muito bem humorada. A única atitude decente que um intelectual pode tomar é odiar a própria pátria. Mas, ao contrário do que disse o Eça, o brasileiro não é o português dilatado pelo calor; é o português murcho, desidratado pelo calor.
Há um chavão aqui no Brasil, e que já chegou a Portugal, de que se tivéssemos sido colonizados pelos britânicos e não pelos portugueses, Brasil seria hoje um país muito mais desenvolvido. Num exercício de achismo, você consegue conceber como seria nossa situação hoje? Não sei se o Brasil seria melhor, mas também não seria pior, porque pior do que isso não dá. Possivelmente o Brasil seria melhor até mesmo se tivesse sido colonizado por Uganda.
O que herdamos de pior de Portugal? A gente estava falando de corporativismo, de covardia intelectual, de bacharelismo: esse excesso de cerimônia no embate de idéias é uma herança de Portugal. Algumas polêmicas histéricas aconteceram lá como aqui, mas o enfrentamento intelectual é, normalmente, muito domesticado, muito comportado.
MUNDO
Como avalia a ação dos americanos no Iraque? Houve uma sucessão de erros. Se há uma desculpa para os americanos é que erraram muito também no Afeganistão, onde fizeram uma guerra com apoio internacional, da ONU e de um monte de países desenvolvidos, e a situação também não está boa. O que há de errado é a idéia de que uma guerra ou uma ocupação pode ser resolvida em dois, três, quatro ou cinco anos, e que haja uma geração espontânea de civilidade. Isso não existe. E foi uma idéia mal vendida.
Você acha possível essa idéia dos americanos de implantar em países orientais uma democracia nos moldes ocidentais? É possível implantar um sistema mais tolerante do que havia. No caso do Afeganistão e do Iraque, é muito melhor tentar implantar um governo mais aberto do que permitir que se mantenham ditaduras. No Iraque, hoje, existe uma espécie de imprensa livre, a tolerância a partidos políticos, a liberdade religiosa, coisas que não existiam e que com o tempo tendem a se enraizar. O Brasil, por exemplo, está numa transição democrática há mais de 20 anos e as instituições, às vezes, cambaleiam. Não é que seja uma coisa simples de se programar e de se implantar. O processo é lento mesmo.
É curioso que a imagem que nos é passada pela imprensa é que nada no Iraque melhorou, a pior imagem possível… É, é. Porque, obviamente, há uma urgência na questão de segurança. É como no Brasil, há uma urgência na área de segurança pública. No caso do Iraque, a segurança é o ponto número um e tem de ser resolvido. Falar em liberdade quando não se pode sair na rua sem o risco de ser explodido por um carro-bomba é até piada. Mas os carros-bomba vão deixar de explodir quando eles conseguirem organizar um estado representativo, não só eleitoralmente, porque isso eles já têm, mas também economicamente.
Você acha que o prolongamento da guerra e a idéia de que os Estados Unidos falharam seriam capazes de dar aos terroristas a impressão de que os americanos não têm força para derrotá-los? Os terroristas se sentiriam mais fortes se, depois de 2001, os Estados Unidos não tivessem feito nada. Ali eles teriam ganho a batalha. Se depois de tudo o que fizeram não houvesse uma resposta americana, aí sim eles se sentiriam vitoriosos. Até mesmo se os Estados Unidos se limitassem a uma retaliação no Afeganistão. Acho que o Iraque virou um campo de enfrentamento entre os Estados Unidos − em teoria, o Ocidente deveria estar do lado dos americanos e não está − e o terrorismo islâmico.
George W. Bush é a besta que a maioria acha? Ele é um trapalhão. Um trapalhão que, nos momentos importantes, tomou as decisões certas, mas foi péssimo na hora de executá-las.
A imigração descontrolada de muçulmanos para os Estados Unidos e Europa se revelou um tremendo tiro no pé do Ocidente. A partir disso se estabeleceu uma discussão sobre uma suposta guerra entre Oriente e Ocidente. Isso está certo? Não existe guerra. Não se pode falar em guerra. O que há é o terrorismo, que é um fenômeno para o qual a gente não encontrou uma resposta ainda. Transformar o Ocidente num estado policial é uma hipótese inviável. Agora, é óbvio que a gente tem que reprimir o terrorismo. A repressão tem que ir até o ponto em que não esmague o estado de liberdades civis. E esse é o ponto que a gente não conhece até agora.
China, Cuba, Coréia do Norte, até quando vão durar esses regimes socialistas ditatoriais? Até a morte desses tiranos. Esses regimes se sustentam pela figura dos tiranos. Depois que eles morrerem, é muito provável que os regimes desmoronem entropicamente. A gente tem que torcer para que essa gente morra logo. Se pudéssemos acelerar a morte deles, seria ótimo.
Você viu o filme feito pelo ex-vice-presidente americano Al Gore? Assim, você acha que o ambientalismo se transformou numa espécie de causa messiânica de gente da esquerda ou de gente séria com boas intenções? Não, não vi o filme. Não vou ao cinema há uns 10 anos. Ambientalismo é uma questão que tem que ser resolvida pelo mercado, pelas fábricas de automóveis e pelas empresas de energia. Acredito no mercado, acredito em competição. Acho que quando a gente tiver uma necessidade econômica de encontrar uma alternativa aos combustíveis fósseis, poluentes, a gente vai ter mais chances de encontrar.
CULTURA
Você explicou porque começou a escrever sobre política. A pergunta é: você pretende voltar a escrever sobre cultura? Serei obrigado. Eu não tenho muito interesse pelo que está acontecendo no mundo da cultura. Não há nada de muito excitante que atraia minha atenção, mas por pura falta de assunto vou acabar caindo em cultura de novo. Vai ser só por desespero, porque, se fosse por escolha própria, eu não voltaria. Entusiasmo pelo tema eu não tenho. E não tenho já há algum tempo.
Quais escritores brasileiros você recomendaria leitura? Os de sempre: Machado de Assis, Lima Barreto. Quem mais? Deve haver o terceiro. Procurando um pouco até poderíamos encontrar.
E os vivos, quais valem a pena? Compartilho o entusiasmo do João Pereira Coutinho pelo Millôr Fernandes. Ele tem um texto rápido, direto. Os bons escritores brasileiros são os mais econômicos: Millôr, Dalton Trevisan, Ivan Lessa - aqueles que conseguem enxugar nossa língua.
Quais seus escritores portugueses preferidos? Li toda a obra do Eça, li toda a obra do Camilo Castelo Branco. Gostei muitíssimo das crônicas do João Pereira Coutinho. Ele é muito bom. Fico contente que o Brasil tenha comprado o passe dele.
Hoje é mais fácil ou mais difícil ser Diogo Mainardi? Eu sempre tive uma visão bastante crítica a meu respeito, então nunca dei muita bola para minha imagem. Sempre me achei pior do que os outros achavam. Sei que o que eu faço é um trabalho, não é uma cruzada. Eu não tenho segundas intenções, não tenho motivação política, interesse pessoal. Faço porque é o meu trabalho. É muito fácil ser Diogo Mainardi porque acabo de trabalhar, desligo computador e sou esse aborrecidíssimo pai de família, um burguesinho comportadinho, certinho, meio barrigudinho que leva o filho para a escola, traz o filho da escola. Então é muito fácil ser Diogo Mainardi. Não recomendo a ninguém, aliás.